Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros: resultados de uma análise de agrupamento

por Pedro Buril

Introdução

O Brasil tem sofrido com o crescente desmatamento e com as mudanças climáticas que isso acarreta. Apenas para ilustrar, de acordo com dados oficiais, o desmatamento no Brasil cresceu 9,5% de 2019–2020, representando um total de 11.000 km² de mata desmatada na Amazônia Legal. Na prática, já sentimos os efeitos do desmatamento. As históricas queimadas no pantanal brasileiro em 2020 e as ameaças de racionamento causado pela falta de chuva são casos que ilustram as consequências da devastação ambiental.

Um dos maiores desafios no combate às mudanças climáticas é o desenvolvimento de políticas eficazes para promover o envolvimento dos cidadãos e mudanças de comportamento (Boso, Hofflinger, Oltra, Alvarez, & Garrido, 2018; Boso, Oltra & Hofflinger, 2019; Reeve, Scott, Hine e Bhullar, 2013). Entretanto, esta não é uma tarefa fácil. Vários estudos expõem as limitações das políticas ambientais em promover mudanças comportamentais significativas e estáveis ​​dentro das populações, resultado de não se considerar a natureza distinta do público-alvo (Campbell & Corley , 2012; McKenzie-Mohr, 2011; Poortinga & Darnton, 2016). Quando as intervenções não reconhecem essas circunstâncias, o público-alvo normalmente reage de forma heterogênea (Poortinga & Darnton, 2016).

O estudo da segmentação tem sido frequentemente utilizado para melhorar a comunicação do risco no campo das percepções e atitudes em relação às mudanças climáticas (Hine et al., 2014; Hine et al., 2013). Por exemplo, o Modelo das Seis Américas do Aquecimento Global (Leiserowitz, Maibach, Roser-Renouf, & Hmielowski, 2012; Leiserowitz, Maibach, Roser-Renouf, & Smith, 2011) classifica a população em seis segmentos de acordo com crenças, preocupações e motivação para lutar contra a mudança climática: alarmado, preocupado, cauteloso, desengajado, duvidoso e desdenhoso.

Para planejar políticas públicas e ações afirmativas é necessário conhecer a percepção dos cidadãos sobre as mudanças climáticas (MCs). Maria, Cavalcanti & Eiró (2011) propõem que a percepção ambiental pública das mudanças climáticas está condicionada à percepção dos cidadãos sobre como as entendem e se sentem afetadas por ela. Desse modo, pesquisas sobre Percepção Ambiental Pública (PAP) são fundamentais para a avaliação de vulnerabilidades e discussão de medidas adaptativas.

Maria, Cavalcanti e Eiró (2011) ainda defendem pesquisas de percepção ambientais no contexto das mudanças climáticas, pois possibilitam: (a) disponibilizar elementos para a compreensão dos mecanismos de opção e comportamentos sociais; (b) criar medidas adaptativas e políticas públicas que traduzam os variados contextos existentes identificando neles quais problemas são prioritários; © identificar quais elementos da subjetividade são mais importantes para compreender o impacto negativo das MCs nas práticas culturais; (d) perceber que fatores influenciam sua forma de agir e interferir no nosso planeta; (e) implementar políticas públicas adequadas às características contextuais; (f) medir a predisposição pública a ações de enfrentamento e combate às MC;

No Brasil, os trabalhos nesse campo são restritos¹ ². Em resposta ao problema, o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS) e o Programa de Mudança Climática da Universidade de Yale (Yale Program on Climate Change Communication), levantaram dados sobre a percepção da população brasileira a respeito de questões relativas ao clima e ao meio ambiente. Um survey (N = 2600) foi conduzido no Brasil, que incluiu questões relativas ao clima e meio ambiente e aspectos sociodemográficos.

Por meio de uma análise de clusters Fuzzy C-Means (FCM), foram identificados três segmentos populacionais que têm necessidades comuns e respondem de forma semelhante às mudanças climáticas. Esperamos que os achados desse estudo possam sedimentar o conhecimento sobre dos conglomerados de indivíduos em torno das mudanças climáticas e nortear a implementação de políticas públicas ao identificar tipos de públicos-alvo.

Programa de Pesquisa

Artigo Pedro Buril